domingo, 15 de março de 2026

Resultado da seleção brasileira de baseball na WBC é prova de que mudanças são necessárias

A participação marcada por consecutivas derrotas do Brasil no World Baseball Classic 2026 diz mais sobre a herança e a forma como a modalidade foi comandada no país do que sobre o talento e a qualidade dos atletas e de sua comissão técnica, também indicando a necessidade de mudanças. Com quatro derrotas em quatro jogos, a seleção foi desclassificada e, na próxima edição do torneio, terá que participar — e se classificar — da rodada classificatória para voltar a figurar entre os principais times do mundo. 


No primeiro confronto, contra os EUA, é claro que a derrota era praticamente inevitável. Ainda assim, os jogadores brasileiros, diante de um gigante, mostraram muita raça e determinação. Grandes talentos, como o arremessador Contreras e o outfielder Lucas Ramirez (filho de Manny Ramirez, ex-Boston Red Sox), foram destaque da partida e chegaram até mesmo a ganhar notoriedade em diferentes mídias. 

Depois, a coisa desandou: a seleção perdeu feio para a Itália, levou uma “goleada” do México e, por fim, sofreu um sacode da Grã-Bretanha — teoricamente o adversário mais fraco entre os demais e contra o qual a seleção brasileira alimentava a esperança de vitória, que não veio.

A seleção mostrou raça e, apesar de ser nitidamente mais fraca tecnicamente em relação às demais equipes, fez o que pôde. Tirou leite de pedra, muitas vezes. Ok, talvez desse para fazer um pouquinho mais, mas, no geral, os jogadores deram tudo o que tinham a oferecer. Quem acompanha o baseball há mais tempo sabia da real situação. Não dá para fazer milagre e, portanto, os resultados já eram mais ou menos esperados, apesar do esforço. Assim, creio que não há espaço para críticas severas em relação aos atletas e à comissão técnica, pois eles usaram as ferramentas que tinham em mãos. E um lenhador não consegue cortar árvores com um canivete.

Parabéns à galera que foi lá, jogou e lutou. Alguns eram brasileiros da gema, como o primeira-base Carvalho; outros tinham sangue estrangeiro, como Bichette. Tivemos também atletas “importados”, a exemplo do venezuelano Villarroel. Todos estiveram unidos para representar a camisa verde e amarela e merecem nosso reconhecimento.

O WBC chegou ao fim para o Brasil, mas acho que vale falar um pouco da história construída até aqui. Como sabemos, o baseball começou no país por volta de 1901–1908, trazido por funcionários e marinheiros norte-americanos que jogavam em portos brasileiros. No entanto, ele ganhou força de verdade a partir de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru, que trouxe os primeiros imigrantes japoneses. Japoneses amam baseball e, rapidamente, o esporte foi disseminado entre os imigrantes e seus descendentes.

O esporte cresceu principalmente nas colônias japonesas e somente há pouco tempo — diria que por volta dos anos 1990 — os times passaram a ser mais receptivos a estrangeiros, ou seja, àqueles que não eram japoneses ou descendentes. Muitos dos dirigentes do baseball brasileiro, nessas colônias, não eram adeptos da ideia de abrir os times para pessoas de fora, principalmente por acreditarem que muitas delas não tinham a mesma disciplina e comprometimento dos orientais. E isso, diga-se de passagem, é compreensível: outra cultura, outro modo de ver o mundo.

Mas os anos foram passando, e os jogadores e técnicos japoneses mais velhos foram se afastando, assim como seu modo de pensar mais restrito. Deram lugar a descendentes mais maleáveis e suscetíveis à ideia de abrir os times aos “gaijins” (“pessoa de fora” ou “estrangeiro”). 

O baseball brasileiro está sob o comando da CBBS — Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol — desde 1946 e, durante décadas (35 anos!), ficou sob a liderança de uma única pessoa, o que gerou muitas críticas. Somente em 2024 o “bastão” da presidência foi passado. Reciclar e arejar é preciso e espera-se, sempre, que a mudança seja realmente efetiva - e não só "para inglês ver".

Todos esses anos sob a mesma gestão dão uma boa noção de quão fechado foi — e, de certo modo, ainda é — o círculo do baseball brasileiro, de quanto o esporte ficou encapsulado em uma bolha, com dificuldade de se expandir. Muitos possivelmente dirão: “ah, mas o brasileiro não gosta de baseball, então nada poderia ser feito para massificar o esporte em terras tupiniquins”. Mas não é bem assim. Há fatos que refutam essa afirmação.

Há cerca de seis anos surgiram ligas amadoras de baseball em São Paulo que reúnem não apenas ex-atletas provenientes de times tradicionais das colônias japonesas, mas também novos praticantes brasileiros que nunca tiveram contato com o esporte. Times amadores também estão surgindo em outros estados, como no distante Manaus. O sucesso é evidente: a cada ano, mais e mais pessoas se inscrevem nas competições dessas ligas, que estão crescendo e sendo divididas em categorias para receber novos adeptos de diferentes níveis.

E então alguém dirá: “ok, mas o baseball no Brasil nunca vai crescer porque as pessoas se dedicam apenas por paixão, sem ganhar nada”. Também não é bem assim. O baseball no Brasil, por incrível que pareça, é profissionalizado. Não há ligas e times profissionais estruturados, mas existem pessoas que trabalham e ganham dinheiro com a modalidade.

A CBBS, por exemplo, recebe aporte financeiro. Será que o trabalho de divulgação da modalidade está sendo eficiente? Como está a recepção de novos atletas? Daria para expandir e melhorar os times de base? Acho que sempre dá, mesmo porque, aos poucos, o acesso à modalidade está menos restrito em relação ao passado. O baseball brasileiro precisa da abertura de novas frentes de atuação e da descentralização do esporte para além de seus círculos tradicionais. (Aqui, vale uma nota: ponto positivo para a ESPN Brasil, que transmitiu todos os jogos; isso foi sensacional).

A CBBS parece estar atenta a esse movimento, e não seria surpresa se, a partir de agora, também passasse a criar campeonatos amadores para acolher as centenas de jogadores-entusiastas que surgem por todo o Brasil. Fãs interessados que, em sua maioria, são verdadeiros apaixonados pelo esporte.

Ao contrário do que muitos imaginam, o baseball é, sim, grande no Brasil. Muitos querem conhecê-lo e ter um contato mais próximo, e só não o fazem por falta de oportunidades. Quem duvidar pode visitar os campos dos campeonatos amadores nos fins de semana para ver pessoas de diversas idades que, não raras vezes, deixam suas famílias em casa para jogar com os amigos — mesmo que, para isso, precisem gastar parte do próprio salário.

Baseball é uma paixão no Brasil e tem tudo para crescer. Para isso, basta um olhar diferenciado e a disposição de concentrar esforços nos lugares certos, nos verdadeiros objetivos, deixando de lado antigas amarras e, claro, sempre respeitando aqueles que realmente amaram o esporte no passado e trabalharam por sua ascensão, independentemente das circunstâncias.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Crescimento urbano, natureza e o "Grande Filtro"

 Nunca se viu tantos prédios sendo construídos na cidade. Nos locais onde vertia água agora há concreto e o cheiro quente do cimento. Nas árvores, o barulho e furor incomum dos pássaros, ao que tudo indica, significam algo muito importante, mas a maioria das pessoas está surda e cega, ou prefere simplesmente ser indiferente ao pedido de socorro da natureza.

Um conhecido meu, hoje já falecido, tinha um programa de rádio e, quando não estava no ar, de vez em quando ligava para conversar sobre amenidades e assuntos corriqueiros. Dificilmente falávamos sobre assuntos sérios, pois quando duas pessoas com gênio difícil resolvem se opor em relação a ideias, nem sempre o bate-papo é muito agradável. E nós dois nos conhecíamos razoavelmente bem, então, talvez por consenso de ambas as partes, preferíamos falar sobre assuntos leves, como futebol, o clima e coisas engraçadas. 

No entanto, certa vez me disse: "É normal a construção de prédios e o uso de áreas verdes para criação de centros urbanos, afinal, a prioridade são as pessoas, e elas precisam de um lugar para viver". Ok, entendi a mensagem de que é preciso dar moradia às pessoas, uma vez que a população tende a aumentar em todos os lugares do planeta, e isso é bastante óbvio, mas aquele modo de pensar me deixou inquieto, pois dava a impressão de que ele defendia um "vale-tudo pelo progresso", pela destinação imperiosa de mais espaços para o ser humano, doa a quem doer. Quais são os limites do avanço urbano? Até que ponto a construção de moradias é mais importante do que preservar as matas, as nascentes, a fauna, enfim, os espaços da natureza? É possível viver em sinergia com o meio ambiente, desenvolvendo o espaço urbano sem degradação? 

Como não podia deixar de ser, retruquei: "Mas você não acha que o modo como estamos inchando as cidades e a maneira com que estamos tratando a natureza não nos serão caras e que poderão acabar com nosso futuro?". Citei inclusive um autor muito conhecido no meio científico, o físico Abraham Loeb, que fala da teoria do "Grande Filtro" em seu livro "Extraterrestre". A hipótese é de que nenhuma sociedade inteligente consiga durar por muito tempo, já que a tecnologia, ao chegar em um estágio avançado, acaba provocando a extinção da civilização, seja por meio de uma guerra nuclear, pelo uso da inteligência artificial ou - por que não? - a destruição da natureza.

Há movimentos importantes, principalmente nos países de primeiro mundo, buscando soluções para o crescimento urbano sustentável. Na Suíça, por exemplo, há o programa "Cidades Sustentáveis", que apóia o desenvolvimento de infraestrutura urbana verde. O objetivo é valorizar projetos de infraestrutura urbana em diversos setores, como transporte, água, esgoto, resíduos sólidos e energia distrital. (E, aqui, uma pausa para reflexão: existem essas ações em andamentos no seu espaço de convivência, na sua cidade, no seu Estado, em seu país?).

Em março de 2024 foi divulgado que Valência, na Espanha, foi eleita a Capital Verde da Europa. Claro que a gente desconfia desses títulos e prêmios, pois às vezes são puro marketing, mas os dados são interessantes: de acordo com a "Comissão Europeia", 97% dos habitantes de Valência vivem a menos de 300 metros de uma grande área verde. Ou seja, existe a iniciativa de priorizar a harmonia entre as áreas urbanas e espaços verdes.

Particularmente, eu gostaria de ver a nossa civilização passar pelo "Grande Filtro", apesar de muitas vezes acreditar que não mereça, diante de tantas barbaridades e desrespeito à vida, em todas as suas formas. Mas para não nos exterminarmos em um futuro que pode ser breve, precisamos fazer a lição de casa, a começar aqui mesmo, em nossas cidades. Enquanto não colocarmos na cabeça que os espaços da natureza precisam ser respeitados, e de que pensar apenas no próprio umbigo é perigoso para o futuro da raça humana, a chance de entalarmos no funil do "Grande Filtro" é perigosamente grande.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

O tempo

 rascunho sobre o

'tempo'

de tempos em tempos, boto reparo no tempo que passa apressado. os cabelos longos da menina da minha vida hoje estão mais longos, bem mais longos do que bem pouco tempo atrás. a mesma menina já é 'quase moça' e parece que foi ontem mesmo que ela queria um tempo pra brincar. 

queria sentar aqui e, ao invés de perder tempo, conseguir convencer o tempo a dar um tempo. explicar que eu só queria ter tempo de ver o tempo passar. mas a vida não gosta de contratempos e pediu licença - afinal, o tempo, sem perder tempo, já quer de novo passar. 



terça-feira, 2 de abril de 2024

Enquanto eu existir

 

Enquanto existir um chão de terra,

Um menino estará ali

Jogando bola, topando o dedo, 

Dizendo "não" ao pai que chama para voltar para casa.

 

Enquanto existir a ilusão,

Uma moça irá se despir

Sonhando com o príncipe encantado

Que irá lhe salvar da solidão.

 

Enquanto houver a saudade,

Haverá alma em prantos

Almejando o amálgama

Para selar sua dor.

 

Enquanto eu estiver aqui,

Não deixarei de pensar em ti

Com a certeza que, muito em breve,

Voltarei a abraçar-te e beijar o rosto teu.

 


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Um anjo que entrou pela janela - uma história da nossa gata Sissi


Num dia de sol, um gato já crescidinho entrou pela janela da minha casa. Uma gata, melhor dizendo. Mas não, ninguém teve contato com ela antes. A gata apareceu de repente, pelo telhado da vizinha, então minha filha ofereceu comida, e ela entrou como se conhecesse cada cantinho e todo mundo que morava ali. Deitava no sofá, caminhava em cima do forno elétrico e, sem medo nenhum, passava se esfregando na Luna, nossa cachorra. Que atrevimento! - pensei comigo, achando tudo aquilo muito engraçado. Luna olhava para mim, como que dizendo "Ei, pode isso?", mas aceitou bem, mesmo não concordando muito, à princípio... 

Ela chegou pouco tempo depois de algo terrível acontecer. No dia em que a Sissi entrou em nossa vida (ah, sobre o nome dela, fui eu que dei, com tônica no primeiro "i", assim: SÍSSI), logo se apegou à minha esposa Regina, e passou a entretê-la, o que me chamou a atenção. A irmã mais nova de Regina, que era filha adotiva, recentemente havia sido assassinada no Rio de Janeiro e, desde então, estava muito, muito triste. O mundo havia caído em sua cabeça não fazia muito tempo, e a gata Sissi esteve ali, firme, junto dela, nitidamente fazendo de tudo para que desviasse a atenção dos acontecimentos. Regina chorava e a gata ao seu lado.

Os dias foram passando e Sissi, que veio da rua sem ninguém chamar, ingressou em nossa família. Fazia parte de nossas vidas como se fosse acolhida por nós desde pequenininha. Sua estada em casa era tão natural que eu lembro de ter estranhado aquilo, pois nunca tinha visto um gato desconhecido entrar na vida de alguém dessa forma, tão abruptamente  e de maneira tão íntima, como se fosse um bichano que estava junto desde que nasceu. Sissi entrava e saia de casa com uma naturalidade e tranquilidade que impressionava, mesmo com a Luna em casa, lançando olhares desconfiados. Desde o primeiro dia foi desse jeito. Era uma nova integrante, mas agindo como se fosse de casa há muito tempo.

Às vésperas do Natal daquele ano, o caminhão de lixo estava parado em nossa rua, bem em frente de casa, e os lixeiros percorriam as residências gritando "olha a caixinha de Natal!", na tentativa de arrecadar uns trocados extras. Uma moça, num carro branco, veio dirigindo e, ao ver o caminhão de lixo, mudou de mão para desviar. Neste momento, a querida Sissi, nosso amor e anjo que caiu como um raio em nossas vidas, atravessou a rua. Eu estava em casa, no porão, e ouvi uma gritaria. Saí correndo e, ao chegar, vi a Sissi já na calçada, imóvel. Regina estava lá e a pegou nos braços, em desespero. Segundo os lixeiros, ela foi atropelada ao tentar atravessar a rua, possivelmente assustado pelo barulho, querendo voltar para nossa casa. A jovem que dirigia o carro branco voltou e, ao ver a cena, pediu desculpas chorando. Daquela forma, também trágica, morreu um dos seres mais queridos e lindos que já vi. Enterrei seu corpinho no quintal, à sombra, ao lado do pé de pitanga. Incrivelmente, não tinha um machucado sequer. As lesões do acidente foram internas.

Como fazia todo dia, Sissi saía durante o dia para fazer suas andanças, e isso era algo praticamente impossível de proibir, pois ela era, na verdade, uma gata criada na rua e não suportava ficar trancada. Chegamos a fechar as portas de casa por um tempo, mas percebemos que isso era péssimo para ela, pois ficava incomodada e infeliz.

Sissi foi embora abruptamente, da mesma forma que chegou. Não sabemos se anteriormente ela já andava pela vizinhança, ou se frequentava outras casas. Mas foi ali, com a gente, que ela veio morar, dormir, passar o maior tempo do dia, se alimentar, fazer estripulias (como deitar e desmanchar as peças do meu tabuleiro de xadrez). Em nosso lar ela dava e recebia muito carinho. Nunca mais a esqueceremos. Um anjo em forma de gato - assim eu acredito que tenha sido essa criatura tão especial feita por Deus, que chegou para acalentar nossas almas e partiu para brilhar junto às estrelas do ceu.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Minha caixinha de lembranças e saudade eternas

Um amigo que fiz pela internet resolveu escrever uma história e me convidou a fazer isso junto com ele, a quatro mãos. Era um cara muito legal e achei que poderia ser uma experiência bacana. Então, aceitei, e a primeira parte do texto ele meu enviou com a instrução de que eu deveria dar continuidade à história. Logo de cara, percebi um tom meio pesado nas palavras, umas linhas reflexivas de alguém que pressentia ou sentia algo não muito bom, que passava por uma fase difícil. Para não aprofundar aquele baixo astral, mudei “só um pouquinho” o rumo e, à minha maneira, inseri umas reviravoltas amalucadas, contando um bizarro acontecimento de um vizinho que matava gatos e depois saía pelo meio da rua gritando, altas horas da madrugada. Era proposital: um devaneio, um escapismo que achava necessário naquele momento.

Quando meu amigo leu aquilo, nitidamente estranhou, mas continuou. Coloquei-o num território desconhecido. Talvez ele estivesse aguardando algo mais sério, profundo, maduro; se enveredar por um caminho mais desafiador. Possivelmente gostaria de uma narrativa mais filosófica, voltada à experiência de vida, à existência em si. Não sei se fiz o certo, mas naquele momento achei que seria melhor assim. Por fim, ele aceitou aquela reviravolta por mim proposta e continuou a escrita, não sei se a contragosto, e assim seguimos por alguns meses. Ele escrevia um trecho e me mandava; eu dava continuidade, e devolvia - e assim sucessivamente.

Não, não era uma história digna de publicação, creio eu, mas estava divertido fazer aquele exercício. Para mim, pelo menos, estava. A gente ia narrando fatos e acontecimentos e deixando uma “ponta” para o outro, que remendava e apresentava novos cenários. E assim a gente ia desenrolando a história... Mas eis que por uns 15 dias, mais ou menos, não recebi mais nada. Um silêncio pairou no ar, em nossos chats e salas de bate-papo.

Não nos falávamos com tanta frequência, mas pelo menos uma vez por semana. E o mais curioso: não o conhecia pessoalmente, apenas pela internet. A distância não impossibilitou de considerá-lo um grande amigo. Estranho isso, e nunca pensei que uma grande amizade poderia nascer dessa forma, sem nunca ter visto a pessoa cara a cara. Não o considerava apenas um amigo de internet, mas sim um amigo da vida. A gente até cogitou em se encontrar para nos conhecer pessoalmente, tomar uma cerveja em algum bar (assim como eu, ele era fã de cerveja), mas isso acabou nunca acontecendo.

“Cara, você viu a minha última parte do texto?”, mandei para ele. Passaram-se dois, três, quatro dias. Nada. Depois soube, por meio de um outro camarada que fiz pela internet, que o meu amigo estava no hospital, internado. Alguns outros dias passaram e descobri seu número de Whatsapp – o que me surpreendeu, pois conhecia sua resistência ao uso de celulares, redes sociais, etc. Então trocamos mais algumas mensagens, por texto e voz, sobre o tratamento que ele fazia - inclusive me confidenciou a agonia de não pode sair dali. Estava preso no hospital, em uma cama. Foram poucos dias assim, trocando poucas mensagens, e as últimas que ele enviou, em áudio, já evidenciavam uma pessoa sem forças, com voz embargada, de brilho fosco, totalmente diferente do que era, certamente já atordoada pelos remédios. Mais uma vez, mandei uma, duas, três mensagens, sem obter resposta.

Em um certo dia acordei e senti um frio na espinha, uma sensação esquisita. Mas não pensei imediatamente em meu amigo e em sua situação complicada – acreditava que ele iria se recuperar, afinal. E fui levando o dia a dia, mas sempre com aquele sentimento cinzento sempre que pensava nele e em nossa história inacabada.

Não demorou muito fiquei sabendo de sua morte. E aí o que eu nunca imaginei que seria possível aconteceu: senti a morte dele como se fosse uma pessoa próxima que convivia diariamente comigo. Seres humanos são mesmo criaturas incríveis e totalmente indecifráveis. Apenas por meio da comunicação, por fala e escrita, à distância, conseguimos nos conectar de uma forma como se estivéssemos morando na mesma cidade, saindo juntos para tomar uma cerveja ou jogar uma partida de um jogo qualquer.

Nosso assunto principal eram os jogos, os videogames e os livros, e apenas trocando ideias sobre isso, sem nunca termos apertado as mãos, nos tornamos grandes amigos – assim eu o considerava. E sinto saudade dos nossos papos, das nossas risadas e tiradas de sarro. E fico lembrando de outras pessoas, parentes e amigos, que fizeram parte de minha vida e também já se foram. E a vida continua passando e, cada vez mais, minha mente se torna uma caixinha de lembranças, onde guardo histórias e experiências, e de saudades eternas.

Felipe Betschart
Janeiro 2024

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

A guerra que não é minha

Na parede,
o pôster do Tio Sam
me chama
para a guerra.

Juro que a guerra não é minha,
nem lado ou exército eu tenho.
 
A única coisa que tenho
são alguns amigos,
familiares,
cão e gato.
 
Não quero ser mais um
nessa mentira que não
fui eu que contei.
 
Também não vou ser 
[mais uma] marionete
na mão dos poderosos.
 
Se me chamarem para a guerra,
pegarei minhas coisas e meus bichos
e vou me entocar em algum bunker.
 
Mas lembrei que não tenho um bunker,
então vou fugir para algum sonho,
onde se contam carneirinhos.

E se houver pesadelo
será só aquele de falar em público pelado.
 
Então, nem me chame para a briga
pois meu espírito é musical,
meu embate é passional,
com direito a pausa e trégua.
 
Não faço parte disso,
das atrocidades e desumanidades.
 
Todos devem ter
um canto tranquilo,
para brincar com cães e todos os bichos.

Onde se possa beijar e abraçar quem ama,
e onde a música ecoe por todo o lugar,
na simplicidade de quem é, simplesmente, feliz.