sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O Gambito Evans – um sistema de abertura atemporal?

 

por Johannes Fischer (no site Chessbase.com)

O Gambito Evans é uma das jogadas de gambito mais famosas da história do xadrez. Ele recebeu esse nome em homenagem a William Davies Evans (1790–1872), um capitão de navio galês que, na década de 1820, teve a ideia de oferecer um peão com 4.b4!?, após 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5. Se as Pretas aceitam o sacrifício, as Brancas ganham tempo para desenvolver suas peças e atacar o rei adversário.

Os principais jogadores do século XIX ficaram entusiasmados com esse conceito, e lendas do xadrez como Paul Morphy e Adolf Anderssen disputaram diversas partidas espetaculares com o Gambito Evans. Mas o que os campeões mundiais modernos pensaram sobre essa abertura?

Capitão Evans (fonte: Wikipedia)

Uma das partidas mais conhecidas envolvendo o Gambito Evans é a vitória de Adolf Anderssen sobre Jean Dufresne, em 1852, a chamada “Partida Imortal” (Evergreen Game). Garry Kasparov fez anotações sobre ela.

Com o passar do tempo, porém, as Pretas encontraram maneiras de responder ao Gambito Evans e, assim como aconteceu com o Gambito do Rei, a abertura se tornou cada vez mais rara nas partidas de grandes mestres. O Gambito Evans nunca desapareceu completamente, entretanto. Grandes mestres modernos ainda o utilizam ocasionalmente como uma arma surpresa — mas talvez também como uma homenagem às partidas dos antigos mestres que os inspiraram no início de suas trajetórias no xadrez.

Alguns campeões mundiais modernos recorreram ocasionalmente ao Gambito Evans, embora principalmente em exibições simultâneas ou em partidas rápidas e de blitz. Uma das partidas modernas mais conhecidas com essa abertura foi disputada por Bobby Fischer. Ela ficou famosa porque Fischer a incluiu em seu livro My 60 Memorable Games, sob o título “A Bust to the King's Gambit?”.

4. b4, o Gambito Evans!

Na introdução da partida, Larry Evans escreveu:

Depois de se tornar um dos principais jogadores do mundo, Fine abandonou o xadrez no auge de sua carreira, em 1945, para se tornar psicanalista. No entanto, não perdeu nada de seu amor pelo jogo e pouco de seu brilho. A partida a seguir foi uma das sete ou oito partidas casuais disputadas em sua casa, em Nova York. Pelo que se pode avaliar, o Dr. Fine parecia manter uma forma razoável.

Aqui, Fischer abandona pela primeira vez sua adorada Defesa Ruy Lopez e emprega o ousado gambito introduzido um século antes pelo capitão Evans. Essa linha complicada praticamente desapareceu do cenário. Fine, embora autor de vários livros sobre aberturas, estava compreensivelmente enferrujado e, uma vez que caiu nas dificuldades, não conseguiu escapar delas. Fischer produz um brilhante final em 17 movimentos.

(Bobby Fischer, My 60 Memorable Games, Schachzentrale Rattmann, 2002, p. 218)

Fischer, porém, nunca jogou o Gambito Evans em uma partida de torneio com ritmo clássico.

Garry Kasparov, por outro lado, jogou. Em 1995, ele utilizou o Gambito Evans para derrotar Vishy Anand em apenas 25 movimentos, no Memorial Tal, em Riga.

Depois da vitória sobre Anand, Kasparov voltou a jogar o Gambito Evans em 1995 e derrotou Jeroen Piket em 29 movimentos.

É difícil dizer quanta confiança Kasparov realmente tinha no Gambito Evans. Depois dessa partida, ele nunca mais tentou a abertura com as Brancas — talvez porque tivesse encontrado uma linha da qual não gostasse, ou talvez porque o fator surpresa tivesse perdido força após suas vitórias sobre Anand e Piket. Kasparov era conhecido por levar as aberturas a sério. Experimentos casuais com variantes nas quais não acreditava não faziam parte de seu estilo.

Magnus Carlsen é bem diferente. Carlsen é conhecido por jogar praticamente qualquer coisa e já utilizou todos os 20 primeiros movimentos possíveis — de 1.a3 a 1.h4 — em partidas de blitz. Como Carlsen conhece bem a história do xadrez e as partidas dos antigos mestres, não surpreende que também tenha utilizado o Gambito Evans. Ele conseguiu uma vitória convincente com a abertura em uma partida de Banter Blitz contra Sanan Sjugirov.

Contra Sjugirov, Carlsen escolheu voluntariamente o Gambito Evans. Em um torneio incomum realizado em Casablanca, em 2024, porém, ele “teve de” jogar a variante.

Naquele evento, os quatro participantes — Carlsen, Anand, Hikaru Nakamura e Bassem Amin — recebiam posições de partidas históricas de campeonatos mundiais. Primeiro, tinham de identificar a posição e, depois, continuar a partida em jogos rápidos.

Mais uma vez, Carlsen impressionou por sua excelente memória enxadrística e seu amplo conhecimento da história do xadrez. Ele reconheceu que a posição apresentada vinha de um confronto pelo Campeonato Mundial entre Steinitz e Chigorin e, a partir daquela posição, derrotou Anand em apenas 25 movimentos.

Baseball, um esporte mental e introspectivo

 Achei interessante um post de uma página sobre baseball, no Instagram, tratando da psicologia no esporte. O título da chamada era assim (tradução livre): "O beisebol é o único jogo que vai mostrar como você fala consigo mesmo" (Baseball is the only game that will expose how you talk to yourself). Achei um pouco exagerada a frase, pois certamente existem outras modalidades nas quais isso acontece - como o golf, por exemplo -, mas, de qualquer modo, a frase é bem verdadeira. Realmente, no baseball você está em constante luta com você mesmo. Quando o jogador está em uma fase ruim, existem os companheiros de time e o técnico para trocar ideia e desabafar, mas quando ele entra no batter box para enfrentar o arremessador, está totalmente sozinho. Nessa situação, a mente começa a trabalhar - e aí, tudo o que acontece depende de como você "se relaciona" com ela: ou essa relação te eleva, ou te derruba!

O baseball é um esporte difícil de ser jogado, exigindo muitas habilidades e vigor físico. Por exemplo, um rebatedor que consegue três boas rebatidas em dez vezes que vai rebater é considerado excepcional. Veja bem: com apenas 30% de sucesso nas rebatidas é considerado diferenciado, acima da média! Ou seja, o esporte é muito desafiador e tem uma característica de ser muito introspectivo em muitos momentos! Aí o post desenvolve algumas ideias bem interessantes, que relacionam essa dificuldade com o status mental de um jogador:

- Ao entrar no batter box, o rebatedor fica sozinho com seus pensamentos, sem nenhum outro companheiro de time que possa ajudar.

- Ao não conseguir um bom resultado ao tentar rebater, o rebatedor deixa transparecer como lida com seus erros e suas falhas.

- Sua mente e seu corpo estão diretamente ligados na hora de uma rebatida; não há nenhuma separação entre pensamento e execução da jogada.

- Consegue se dar melhor quem consegue "apagar" o que aconteceu de ruim há instantes atrás; aquele que não fica remoendo erros de defesa ou más rebatidas.

- Ficar fissurado em buscar o swing perfeito é, na verdade, um medo disfarçado; buscar perfeccionismo não vai ajudar.

- A confiança é essencial e não vem de "fora", como, por exemplo, de uma conversa em que o técnico te faz elogios; a confiança vem após dias e dias de treino, de busca incessante pelo aperfeiçoamento.

- Você muda de postura de acordo com a maneira com que você conversa consigo mesmo - você vai rebater de um jeito e volta de outro, completamente diferente; você se transforma como jogador dependendo de como pensa, como lida com os acontecimentos, como você fala consigo mesmo quando ninguém está por perto.

- O baseball mostra que os resultados dependem do seu mindset (ou seja, a mentalidade, a forma como uma pessoa pensa e interpreta situações), exatamente assim como acontece na vida.

Como disse, esse assunto eu vi em um post de uma página de Instagram e, nos comentários, uma pessoa citou o livro "The Mental Keys to Hitting", de H. A. Dorfman.

Ainda não li e vou atrás dele, mas, em pesquisa, vi que trata justamente da parte mental do rebatedor, como se fosse um manual de "psicologia do rebatedor". O sumário já mostra bem a filosofia do livro:

1. "See the ball" - veja a bola: o ponto de partida de tudo. O rebatedor não deve ficar pensando em mecânica, resultado, média, etc. A tarefa é ver a bola e reagir ao que está acontecendo.

2. Agressividade sob controle: ser agressivo não significa sair tentando rebater qualquer coisa. O rebatedor precisa ter uma postura agressiva dentro de um plano. É aquela diferença entre “Quero bater forte nessa bola” e “Estou preparado para atacar a bola certa”.

3. Não viver pelas expectativas dos outros: estabelecer seus próprios objetivos, em vez de tentar satisfazer expectativas externas. Isso é particularmente importante no baseball porque o resultado é cruel: mesmo fazendo tudo corretamente, você pode sair 0 de 4.

4. Self-coaching — ser seu próprio treinador: durante uma partida, o jogador precisa conseguir fazer ajustes sozinho. Não pode depender o tempo inteiro do técnico para dizer o que está errado. O conceito é: aconteceu alguma coisa → observe → interprete → faça o ajuste → siga em frente.

5. Self-talk — conversa interna: Dorfman dedica um capítulo inteiro ao diálogo interno - aquilo que o jogador fala para si mesmo. A ideia não é ficar repetindo frases motivacionais vazias. É utilizar pensamentos que ajudem a executar a tarefa. Em vez de “Não posso ser eliminado por strikeout”, algo como "Veja a bola. Fique equilibrado. Ataque”.

6. Concentração na tarefa: concentrar-se no que está sob seu controle naquele momento. O rebatedor não controla o resultado. Não controla o juiz. Não controla o arremesso depois que ele sai da mão do pitcher. Não controla se o defensor fará uma grande jogada. Ele controla sua preparação, sua abordagem e sua reação.

7. Rotina não é superstição - o livro diferencia rotina de superstição. Uma rotina serve para colocar o jogador no estado mental adequado. A superstição, ao contrário, pode fazer o jogador acreditar que precisa realizar determinada coisa para que o resultado aconteça.

8. Relaxamento - Dorfman também insiste na relação entre mente e corpo: uma mente tensa produz um corpo tenso. Para um rebatedor, isso é fundamental. Você precisa estar preparado e agressivo, mas não rígido.

9. Approach → Result → Response

Approach (abordagem) → o que você pretendia fazer.

Result (resultado) → o que efetivamente aconteceu.

Response (resposta) → como você reage ao resultado.

O ponto é que você controla principalmente a abordagem e a resposta, não o resultado. Você pode fazer um excelente swing e acertar uma line drive diretamente no defensor. O resultado foi ruim. Mas sua abordagem pode ter sido excelente - e sua resposta deveria ser continuar preparado para a próxima oportunidade.

10. Confiança e capacidade: a confiança não deveria depender de estar constantemente conseguindo hits. O jogador precisa confiar na sua capacidade de executar, inclusive quando o resultado não aparece. 




domingo, 9 de agosto de 2026

Sudoku e o método do chutômetro

 Nunca parei para ler sobre a história do Sudoku, um puzzle que sempre achei muito interessante e que aparece ao lado das palavras cruzadas do caderno de Cultura dos jornais. Hoje, então, resolvi parar para pesquisar sobre esse passatempo matemático que é genial. Para minha surpresa, apesar do nome japonês, ele foi criado nos Estados Unidos. O Japão foi quem o popularizou, deu o nome Sudoku e teve papel importante para que ele se tornasse o fenômeno mundial que conhecemos hoje. Na verdade, antes de falar sobre o Sudoku e a febre mundial que se tornou, é preciso falar sobre o matemático suíço Leonhard Euler. Ele estudou os chamados “quadrados latinos”: uma grade em que cada símbolo aparece uma única vez em cada linha e coluna. Por exemplo:

1 2 3 4
2 3 4 1
3 4 1 2
4 1 2 3

Isso não era Sudoku (ainda). Faltava a característica fundamental das regiões 3x3. Mas a ideia matemática dos quadrados latinos está na raiz do jogo.

Aí veio, então, o arquiteto americano Howard Garns, que criou o Sudoku como conhecemos hoje em 1979 (um ano antes de eu nascer!). E olha só: o hobby dele era justamente criar quebra-cabeças, ou seja, tinha que ser ele mesmo. Howard elaborou uma grade 9x9, dividida em nove quadrados de 3x3, exatamente como conhecemos hoje.

O quebra-cabeça foi publicado pela revista Dell Pencil Puzzles & Word Games, mas não se chamava Sudoku. Chamava-se “Number Place” (literalmente, algo como “colocação de números”). Bem, para resumir, diz a História que ele não ficou famoso por sua invenção! Ele morreu em 1989, antes do Sudoku se transformar no fenômeno mundial que conhecemos.

Agora vou falar qual o método que uso para completar um desafio de Sudoku. Como é possível ver neste puzzle abaixo (que completei minutos antes de escrever estas linhas), primeiro quebro a cabeça encaixando os números nos espaços onde tenho certeza que devem ser posicionados (a regra é simples: não pode repetir os números de 1 a 9 nas linhas horizontais e verticais, nem dentro das regiões 3x3).

Depois de fritar um pouco a cachola, geralmente ficam restando espaços onde são possíveis encaixar dois números diferentes. Meu método de “jornalista-de-humanas-que-nunca-estudou-matemática-como-se-deve” consiste, então, em fazer belos chutes escrevendo a lápis, pois daí é possível apagar ao perceber que a vaca foi para o brejo, com as sequências erradas. Como disse, depois de um tempo, o quadrado 9x9 ou as linhas e colunas aceitam duas opções de números, então, coloco o outro número no lugar daquele que eu apaguei e sigo completando. É uma espécie de tentativa e erro, que, para mim, costuma funcionar muito bem, mas juro que não sei se isso é o certo a fazer. Depois pesquiso mais para ver se existe uma fórmula exata – que não seja a do chutômetro. De todo modo, como não sou matemático, creio que até me saio bem nessa brincadeira apaixonante.

domingo, 15 de março de 2026

Resultado da seleção brasileira de baseball na WBC é prova de que mudanças são necessárias

A participação marcada por consecutivas derrotas do Brasil no World Baseball Classic 2026 diz mais sobre a herança e a forma como a modalidade foi comandada no país do que sobre o talento e a qualidade dos atletas e de sua comissão técnica, também indicando a necessidade de mudanças. Com quatro derrotas em quatro jogos, a seleção foi desclassificada e, na próxima edição do torneio, terá que participar — e se classificar — da rodada classificatória para voltar a figurar entre os principais times do mundo. 


No primeiro confronto, contra os EUA, é claro que a derrota era praticamente inevitável. Ainda assim, os jogadores brasileiros, diante de um gigante, mostraram muita raça e determinação. Grandes talentos, como o arremessador Contreras e o outfielder Lucas Ramirez (filho de Manny Ramirez, ex-Boston Red Sox), foram destaque da partida e chegaram até mesmo a ganhar notoriedade em diferentes mídias. 

Depois, a coisa desandou: a seleção perdeu feio para a Itália, levou uma “goleada” do México e, por fim, sofreu um sacode da Grã-Bretanha — teoricamente o adversário mais fraco entre os demais e contra o qual a seleção brasileira alimentava a esperança de vitória, que não veio.

A seleção mostrou raça e, apesar de ser nitidamente mais fraca tecnicamente em relação às demais equipes, fez o que pôde. Tirou leite de pedra, muitas vezes. Ok, talvez desse para fazer um pouquinho mais, mas, no geral, os jogadores deram tudo o que tinham a oferecer. Quem acompanha o baseball há mais tempo sabia da real situação. Não dá para fazer milagre e, portanto, os resultados já eram mais ou menos esperados, apesar do esforço. Assim, creio que não há espaço para críticas severas em relação aos atletas e à comissão técnica, pois eles usaram as ferramentas que tinham em mãos. E um lenhador não consegue cortar árvores com um canivete.

Parabéns à galera que foi lá, jogou e lutou. Alguns eram brasileiros da gema, como o primeira-base Carvalho; outros tinham sangue estrangeiro, como Bichette. Tivemos também atletas “importados”, a exemplo do venezuelano Villarroel. Todos estiveram unidos para representar a camisa verde e amarela e merecem nosso reconhecimento.

O WBC chegou ao fim para o Brasil, mas acho que vale falar um pouco da história construída até aqui. Como sabemos, o baseball começou no país por volta de 1901–1908, trazido por funcionários e marinheiros norte-americanos que jogavam em portos brasileiros. No entanto, ele ganhou força de verdade a partir de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru, que trouxe os primeiros imigrantes japoneses. Japoneses amam baseball e, rapidamente, o esporte foi disseminado entre os imigrantes e seus descendentes.

O esporte cresceu principalmente nas colônias japonesas e somente há pouco tempo — diria que por volta dos anos 1990 — os times passaram a ser mais receptivos a estrangeiros, ou seja, àqueles que não eram japoneses ou descendentes. Muitos dos dirigentes do baseball brasileiro, nessas colônias, não eram adeptos da ideia de abrir os times para pessoas de fora, principalmente por acreditarem que muitas delas não tinham a mesma disciplina e comprometimento dos orientais. E isso, diga-se de passagem, é compreensível: outra cultura, outro modo de ver o mundo.

Mas os anos foram passando, e os jogadores e técnicos japoneses mais velhos foram se afastando, assim como seu modo de pensar mais restrito. Deram lugar a descendentes mais maleáveis e suscetíveis à ideia de abrir os times aos “gaijins” (“pessoa de fora” ou “estrangeiro”). 

O baseball brasileiro está sob o comando da CBBS — Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol — desde 1946 e, durante décadas (35 anos!), ficou sob a liderança de uma única pessoa, o que gerou muitas críticas. Somente em 2024 o “bastão” da presidência foi passado. Reciclar e arejar é preciso e espera-se, sempre, que a mudança seja realmente efetiva - e não só "para inglês ver".

Todos esses anos sob a mesma gestão dão uma boa noção de quão fechado foi — e, de certo modo, ainda é — o círculo do baseball brasileiro, de quanto o esporte ficou encapsulado em uma bolha, com dificuldade de se expandir. Muitos possivelmente dirão: “ah, mas o brasileiro não gosta de baseball, então nada poderia ser feito para massificar o esporte em terras tupiniquins”. Mas não é bem assim. Há fatos que refutam essa afirmação.

Há cerca de seis anos surgiram ligas amadoras de baseball em São Paulo que reúnem não apenas ex-atletas provenientes de times tradicionais das colônias japonesas, mas também novos praticantes brasileiros que nunca tiveram contato com o esporte. Times amadores também estão surgindo em outros estados, como no distante Manaus. O sucesso é evidente: a cada ano, mais e mais pessoas se inscrevem nas competições dessas ligas, que estão crescendo e sendo divididas em categorias para receber novos adeptos de diferentes níveis.

E então alguém dirá: “ok, mas o baseball no Brasil nunca vai crescer porque as pessoas se dedicam apenas por paixão, sem ganhar nada”. Também não é bem assim. O baseball no Brasil, por incrível que pareça, é profissionalizado. Não há ligas e times profissionais estruturados, mas existem pessoas que trabalham e ganham dinheiro com a modalidade.

A CBBS, por exemplo, recebe aporte financeiro. Será que o trabalho de divulgação da modalidade está sendo eficiente? Como está a recepção de novos atletas? Daria para expandir e melhorar os times de base? Acho que sempre dá, mesmo porque, aos poucos, o acesso à modalidade está menos restrito em relação ao passado. O baseball brasileiro precisa da abertura de novas frentes de atuação e da descentralização do esporte para além de seus círculos tradicionais. (Aqui, vale uma nota: ponto positivo para a ESPN Brasil, que transmitiu todos os jogos; isso foi sensacional).

A CBBS parece estar atenta a esse movimento, e não seria surpresa se, a partir de agora, também passasse a criar campeonatos amadores para acolher as centenas de jogadores-entusiastas que surgem por todo o Brasil. Fãs interessados que, em sua maioria, são verdadeiros apaixonados pelo esporte.

Ao contrário do que muitos imaginam, o baseball é, sim, grande no Brasil. Muitos querem conhecê-lo e ter um contato mais próximo, e só não o fazem por falta de oportunidades. Quem duvidar pode visitar os campos dos campeonatos amadores nos fins de semana para ver pessoas de diversas idades que, não raras vezes, deixam suas famílias em casa para jogar com os amigos — mesmo que, para isso, precisem gastar parte do próprio salário.

Baseball é uma paixão no Brasil e tem tudo para crescer. Para isso, basta um olhar diferenciado e a disposição de concentrar esforços nos lugares certos, nos verdadeiros objetivos, deixando de lado antigas amarras e, claro, sempre respeitando aqueles que realmente amaram o esporte no passado e trabalharam por sua ascensão, independentemente das circunstâncias.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Crescimento urbano, natureza e o "Grande Filtro"

 Nunca se viu tantos prédios sendo construídos na cidade. Nos locais onde vertia água agora há concreto e o cheiro quente do cimento. Nas árvores, o barulho e furor incomum dos pássaros, ao que tudo indica, significam algo muito importante, mas a maioria das pessoas está surda e cega, ou prefere simplesmente ser indiferente ao pedido de socorro da natureza.

Um conhecido meu, hoje já falecido, tinha um programa de rádio e, quando não estava no ar, de vez em quando ligava para conversar sobre amenidades e assuntos corriqueiros. Dificilmente falávamos sobre assuntos sérios, pois quando duas pessoas com gênio difícil resolvem se opor em relação a ideias, nem sempre o bate-papo é muito agradável. E nós dois nos conhecíamos razoavelmente bem, então, talvez por consenso de ambas as partes, preferíamos falar sobre assuntos leves, como futebol, o clima e coisas engraçadas. 

No entanto, certa vez me disse: "É normal a construção de prédios e o uso de áreas verdes para criação de centros urbanos, afinal, a prioridade são as pessoas, e elas precisam de um lugar para viver". Ok, entendi a mensagem de que é preciso dar moradia às pessoas, uma vez que a população tende a aumentar em todos os lugares do planeta, e isso é bastante óbvio, mas aquele modo de pensar me deixou inquieto, pois dava a impressão de que ele defendia um "vale-tudo pelo progresso", pela destinação imperiosa de mais espaços para o ser humano, doa a quem doer. Quais são os limites do avanço urbano? Até que ponto a construção de moradias é mais importante do que preservar as matas, as nascentes, a fauna, enfim, os espaços da natureza? É possível viver em sinergia com o meio ambiente, desenvolvendo o espaço urbano sem degradação? 

Como não podia deixar de ser, retruquei: "Mas você não acha que o modo como estamos inchando as cidades e a maneira com que estamos tratando a natureza não nos serão caras e que poderão acabar com nosso futuro?". Citei inclusive um autor muito conhecido no meio científico, o físico Abraham Loeb, que fala da teoria do "Grande Filtro" em seu livro "Extraterrestre". A hipótese é de que nenhuma sociedade inteligente consiga durar por muito tempo, já que a tecnologia, ao chegar em um estágio avançado, acaba provocando a extinção da civilização, seja por meio de uma guerra nuclear, pelo uso da inteligência artificial ou - por que não? - a destruição da natureza.

Há movimentos importantes, principalmente nos países de primeiro mundo, buscando soluções para o crescimento urbano sustentável. Na Suíça, por exemplo, há o programa "Cidades Sustentáveis", que apóia o desenvolvimento de infraestrutura urbana verde. O objetivo é valorizar projetos de infraestrutura urbana em diversos setores, como transporte, água, esgoto, resíduos sólidos e energia distrital. (E, aqui, uma pausa para reflexão: existem essas ações em andamentos no seu espaço de convivência, na sua cidade, no seu Estado, em seu país?).

Em março de 2024 foi divulgado que Valência, na Espanha, foi eleita a Capital Verde da Europa. Claro que a gente desconfia desses títulos e prêmios, pois às vezes são puro marketing, mas os dados são interessantes: de acordo com a "Comissão Europeia", 97% dos habitantes de Valência vivem a menos de 300 metros de uma grande área verde. Ou seja, existe a iniciativa de priorizar a harmonia entre as áreas urbanas e espaços verdes.

Particularmente, eu gostaria de ver a nossa civilização passar pelo "Grande Filtro", apesar de muitas vezes acreditar que não mereça, diante de tantas barbaridades e desrespeito à vida, em todas as suas formas. Mas para não nos exterminarmos em um futuro que pode ser breve, precisamos fazer a lição de casa, a começar aqui mesmo, em nossas cidades. Enquanto não colocarmos na cabeça que os espaços da natureza precisam ser respeitados, e de que pensar apenas no próprio umbigo é perigoso para o futuro da raça humana, a chance de entalarmos no funil do "Grande Filtro" é perigosamente grande.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

O tempo

 rascunho sobre o

'tempo'

de tempos em tempos, boto reparo no tempo que passa apressado. os cabelos longos da menina da minha vida hoje estão mais longos, bem mais longos do que bem pouco tempo atrás. a mesma menina já é 'quase moça' e parece que foi ontem mesmo que ela queria um tempo pra brincar. 

queria sentar aqui e, ao invés de perder tempo, conseguir convencer o tempo a dar um tempo. explicar que eu só queria ter tempo de ver o tempo passar. mas a vida não gosta de contratempos e pediu licença - afinal, o tempo, sem perder tempo, já quer de novo passar. 



terça-feira, 2 de abril de 2024

Enquanto eu existir

 

Enquanto existir um chão de terra,

Um menino estará ali

Jogando bola, topando o dedo, 

Dizendo "não" ao pai que chama para voltar para casa.

 

Enquanto existir a ilusão,

Uma moça irá se despir

Sonhando com o príncipe encantado

Que irá lhe salvar da solidão.

 

Enquanto houver a saudade,

Haverá alma em prantos

Almejando o amálgama

Para selar sua dor.

 

Enquanto eu estiver aqui,

Não deixarei de pensar em ti

Com a certeza que, muito em breve,

Voltarei a abraçar-te e beijar o rosto teu.