A participação marcada por consecutivas derrotas do Brasil no World Baseball Classic 2026 diz mais sobre a herança e a forma como a modalidade foi comandada no país do que sobre o talento e a qualidade dos atletas e de sua comissão técnica, também indicando a necessidade de mudanças. Com quatro derrotas em quatro jogos, a seleção foi desclassificada e, na próxima edição do torneio, terá que participar — e se classificar — da rodada classificatória para voltar a figurar entre os principais times do mundo.
No primeiro confronto, contra os EUA, é claro que a derrota era praticamente inevitável. Ainda assim, os jogadores brasileiros, diante de um gigante, mostraram muita raça e determinação. Grandes talentos, como o arremessador Contreras e o outfielder Lucas Ramirez (filho de Manny Ramirez, ex-Boston Red Sox), foram destaque da partida e chegaram até mesmo a ganhar notoriedade em diferentes mídias.
Depois, a coisa desandou: a seleção perdeu feio para a Itália, levou uma “goleada” do México e, por fim, sofreu um sacode da Grã-Bretanha — teoricamente o adversário mais fraco entre os demais e contra o qual a seleção brasileira alimentava a esperança de vitória, que não veio.
A seleção mostrou raça e, apesar de ser nitidamente mais fraca tecnicamente em relação às demais equipes, fez o que pôde. Tirou leite de pedra, muitas vezes. Ok, talvez desse para fazer um pouquinho mais, mas, no geral, os jogadores deram tudo o que tinham a oferecer. Quem acompanha o baseball há mais tempo sabia da real situação. Não dá para fazer milagre e, portanto, os resultados já eram mais ou menos esperados, apesar do esforço. Assim, creio que não há espaço para críticas severas em relação aos atletas e à comissão técnica, pois eles usaram as ferramentas que tinham em mãos. E um lenhador não consegue cortar árvores com um canivete.
Parabéns à galera que foi lá, jogou e lutou. Alguns eram brasileiros da gema, como o primeira-base Carvalho; outros tinham sangue estrangeiro, como Bichette. Tivemos também atletas “importados”, a exemplo do venezuelano Villarroel. Todos estiveram unidos para representar a camisa verde e amarela e merecem nosso reconhecimento.
O WBC chegou ao fim para o Brasil, mas acho que vale falar um pouco da história construída até aqui. Como sabemos, o baseball começou no país por volta de 1901–1908, trazido por funcionários e marinheiros norte-americanos que jogavam em portos brasileiros. No entanto, ele ganhou força de verdade a partir de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru, que trouxe os primeiros imigrantes japoneses. Japoneses amam baseball e, rapidamente, o esporte foi disseminado entre os imigrantes e seus descendentes.
O esporte cresceu principalmente nas colônias japonesas e somente há pouco tempo — diria que por volta dos anos 1990 — os times passaram a ser mais receptivos a estrangeiros, ou seja, àqueles que não eram japoneses ou descendentes. Muitos dos dirigentes do baseball brasileiro, nessas colônias, não eram adeptos da ideia de abrir os times para pessoas de fora, principalmente por acreditarem que muitas delas não tinham a mesma disciplina e comprometimento dos orientais. E isso, diga-se de passagem, é compreensível: outra cultura, outro modo de ver o mundo.
Mas os anos foram passando, e os jogadores e técnicos japoneses mais velhos foram se afastando, assim como seu modo de pensar mais restrito. Deram lugar a descendentes mais maleáveis e suscetíveis à ideia de abrir os times aos “gaijins” (“pessoa de fora” ou “estrangeiro”).
O baseball brasileiro está sob o comando da CBBS — Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol — desde 1946 e, durante décadas (35 anos!), ficou sob a liderança de uma única pessoa, o que gerou muitas críticas. Somente em 2024 o “bastão” da presidência foi passado. Reciclar e arejar é preciso e espera-se, sempre, que a mudança seja realmente efetiva - e não só "para inglês ver".
Todos esses anos sob a mesma gestão dão uma boa noção de quão fechado foi — e, de certo modo, ainda é — o círculo do baseball brasileiro, de quanto o esporte ficou encapsulado em uma bolha, com dificuldade de se expandir. Muitos possivelmente dirão: “ah, mas o brasileiro não gosta de baseball, então nada poderia ser feito para massificar o esporte em terras tupiniquins”. Mas não é bem assim. Há fatos que refutam essa afirmação.
Há cerca de seis anos surgiram ligas amadoras de baseball em São Paulo que reúnem não apenas ex-atletas provenientes de times tradicionais das colônias japonesas, mas também novos praticantes brasileiros que nunca tiveram contato com o esporte. Times amadores também estão surgindo em outros estados, como no distante Manaus. O sucesso é evidente: a cada ano, mais e mais pessoas se inscrevem nas competições dessas ligas, que estão crescendo e sendo divididas em categorias para receber novos adeptos de diferentes níveis.
E então alguém dirá: “ok, mas o baseball no Brasil nunca vai crescer porque as pessoas se dedicam apenas por paixão, sem ganhar nada”. Também não é bem assim. O baseball no Brasil, por incrível que pareça, é profissionalizado. Não há ligas e times profissionais estruturados, mas existem pessoas que trabalham e ganham dinheiro com a modalidade.
A CBBS, por exemplo, recebe aporte financeiro. Será que o trabalho de divulgação da modalidade está sendo eficiente? Como está a recepção de novos atletas? Daria para expandir e melhorar os times de base? Acho que sempre dá, mesmo porque, aos poucos, o acesso à modalidade está menos restrito em relação ao passado. O baseball brasileiro precisa da abertura de novas frentes de atuação e da descentralização do esporte para além de seus círculos tradicionais. (Aqui, vale uma nota: ponto positivo para a ESPN Brasil, que transmitiu todos os jogos; isso foi sensacional).
A CBBS parece estar atenta a esse movimento, e não seria surpresa se, a partir de agora, também passasse a criar campeonatos amadores para acolher as centenas de jogadores-entusiastas que surgem por todo o Brasil. Fãs interessados que, em sua maioria, são verdadeiros apaixonados pelo esporte.
Ao contrário do que muitos imaginam, o baseball é, sim, grande no Brasil. Muitos querem conhecê-lo e ter um contato mais próximo, e só não o fazem por falta de oportunidades. Quem duvidar pode visitar os campos dos campeonatos amadores nos fins de semana para ver pessoas de diversas idades que, não raras vezes, deixam suas famílias em casa para jogar com os amigos — mesmo que, para isso, precisem gastar parte do próprio salário.
Baseball é uma paixão no Brasil e tem tudo para crescer. Para isso, basta um olhar diferenciado e a disposição de concentrar esforços nos lugares certos, nos verdadeiros objetivos, deixando de lado antigas amarras e, claro, sempre respeitando aqueles que realmente amaram o esporte no passado e trabalharam por sua ascensão, independentemente das circunstâncias.

Nenhum comentário:
Postar um comentário